Apesar da crise, valores destinados à área social permanecem em patamar elevado


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imagem meramente ilustrativa

Mesmo diante de uma conjuntura econômica recessiva vivenciada pelo Brasil, os valores destinados à área social permaneceram em um patamar elevado, chegando a R$ 2,6 bilhões no ano de 2015. Isso é o que mostra a edição do estudo BISC 2016 (Benchmarking do Investimento Social Corporativo).

A pesquisa, iniciada em 2008, é resultado de uma parceria entre a organização da sociedade civil Comunitas e um conjunto selecionado de empresas. Realizada anualmente, o estudo tem por objetivo contribuir para o desenvolvimento, o aperfeiçoamento da gestão e a avaliação dos investimentos sociais corporativos no Brasil. Em 2015, a pesquisa abrangeu 325 organizações.

Segundo Anna Peliano, pesquisadora que conduz o estudo desde 2008, essa manutenção dos investimentos é reflexo do perfil das empresas e institutos pesquisados – a maioria de grande porte –, que possuem projetos sociais estruturados e com orçamentos já definidos a longo prazo, o que traz mais segurança para manter as ações diante de períodos de instabilidade. Porém, os reflexos da crise poderão ser sentidos a médio prazo.

A especialista destaca ainda que, apesar do padrão do investimento ter se mantido no período, é preciso olhar com cautela os resultados, pois a manutenção do padrão dos investimentos sociais não foi generalizada. Ao contrário, apenas uma minoria de empresas (36%) conseguiu ampliar os recursos investidos e responde por esse resultado: em 14% houve uma redução superior a 25% e em 29% houve um aumento superior a 25%

A evolução dos investimentos sociais também não foi homogênea entre as empresas e seus institutos. Enquanto nas primeiras houve um crescimento dos recursos da ordem de 28%, nos institutos observou-se uma queda de 19%, entre 2014 e 2015.

O reflexo da crise também se faz diante da diminuição do uso dos incentivos fiscais: uma redução de 32% em relação aos valores aplicados no ano anterior. Esse é o pior resultado em todo o período analisado pelo BISC. A maior novidade neste campo, porém, é o crescimento dos incentivos à saúde – Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (PRONAS) e Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (PRONON).

A criação, em 2012, destes incentivos fiscais contribuiu para ampliar os investimentos sociais das empresas na área da saúde. Em 2011, eles eram da ordem de R$ 31 milhões, aumentando em 2015 para R$ 114 milhões, dos quais 65% provenientes desses novos incentivos.

Assim, três anos mais tarde de serem criados, o PRONON e o PRONAS responderam por 16% do total dos incentivos, ultrapassando o índice referente a idosos, crianças e adolescentes e ao esporte.

“Isso mostra que os incentivos de fato estimulam as empresas a atuarem mais na área social. No caso da saúde foi é um panorama bem interessante, pois tivemos uma resposta relativamente rápida do setor, que está investimento neste campo”, comenta Anna.

Alinhamento ao negócio

O BISC tem tentado captar, há algumas edições, como tem se comportado o setor em relação ao alinhamento das iniciativas sociais aos negócios. “O alinhamento é a forma de estratégia ganha-ganha, ou seja, ganha a empresa, o instituto e a comunidade, a fim de garantir sustentabilidade do investimento”, comenta Anna.

A especialista aponta que esta é, sem dúvida, uma tendência cada vez mais forte do setor. Segundo o estudo, as empresas (53%), mais do que os seus institutos (33%), estão repensando o desenho de seus projetos sociais e buscando adotar novas metodologias, que associem custos menores a uma maior adequação à realidade das comunidades atendidas e aproximação dos negócios.

“No início do BISC, havia um movimento das empresas e institutos em redirecionar o conteúdo de seus projetos de qualificação profissional, antes voltados para áreas como costura, cabeleireiro etc, para formações necessárias e específicas das empresas, por exemplo. Agora, começamos a perceber que algumas estão radicalizando mais, até se preparando para encerrar projetos clássicos de educação, por exemplo, para desenvolver ações voltadas para a cadeia de fornecedores. Isso começa devagar, mas o alinhamento vai mais fundo mesmo. Essa mudança mais radical não sabemos ainda qual será a dimensão e impacto para o setor”, comenta.

Essa nova postura se reflete em várias novas ações e estratégias adotadas pelas empresas e seus institutos e fundações. De acordo com a pesquisa, a proporção dos investimentos destinados a projetos alinhados aos negócios revela a consolidação dessa estratégia: mais de 60% das empresas destinam a maior parte dos seus recursos para o financiamento de projetos já alinhados.

Identificar os anseios dos stakeholders e ter em conta suas demandas faz parte da estratégia de alinhamento dos investimentos sociais aos negócios. Na percepção dos gestores, eles privilegiam as atividades de desenvolvimento comunitário e educação. Tal resultado explica a tendência das empresas de concentrarem o foco dos seus projetos alinhados nessas duas frentes de atuação.

Outra ação em que se desponta a estratégia de alinhamento ao negócio são os programas de voluntariado: 75% dizem fazer essa aproximação. Na avaliação de Anna Peliano, as empresas percebem os benefícios do alinhamento de diversas formas: os programas podem ajudar a comunidade, melhoram o relacionamento da empresa com o território, além de beneficiar o próprio ambiente de trabalho interno, pois os funcionários desenvolvem competências para lidar com a diversidade, criatividade, espírito de equipe e mais compromisso da empresa.

Abandonando a postura anterior de manter a condução dos investimentos sociais distante das demais áreas de negócios, atualmente as empresas cuidam de promover a sinergia das diversas equipes. Em 63% delas já há uma recomendação explícita da direção para essa integração e os esforços empreendidos nessa direção se manifestam na variedade de unidades que estão mais próximas das equipes que cuidam do social

A maioria das empresas (69%) e dos institutos (55%) investiu na capacitação das equipes que cuidam do social, adotando, para tanto, distintas iniciativas. Entre elas, destacam-se o apoio à participação dos colaboradores em cursos realizados por outras organizações e a promoção de cursos internos.

Apesar dos esforços empreendidos na profissionalização das equipes, as empresas consideram que é necessário continuar investindo nesta direção. Vale mencionar que a maioria delas destacou a importância de aprofundar o conhecimento dos seus colaboradores nas áreas de políticas públicas e de negócios sociais, o que revela a tendência de fortalecimento das duas frentes de atuação.

De acordo com Anna Peliano, todas as ações realizadas pelas empresas para inovar na condução dos investimentos sociais e na profissionalização das suas equipes refletem na qualidade das práticas sociais. Na autoavaliação realizada pelo grupo, o resultado foi de 8,7 (numa escala de 0 a 10), sendo a melhor pontuação de todo o período analisado. Essa autoavaliação leva em conta 25 requisitos em cinco dimensões que foram estabelecidos para determinar uma prática social de sucesso.

Investimento e ODS

O BISC 2016 buscou subsidiar a reflexão e os debates acerca das possibilidades de conexão dos investimentos sociais privados à “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, aprovada em 2015 pelos 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas.

Para o desenvolvimento dessa parte da pesquisa, a Comunitas buscou integrar os seus esforços com outras instituições que se dedicam a apoiar a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil. Para tanto, formalizou uma parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), visando a cooperação técnica entre as duas instituições; e dialogou com especialistas da Agenda Pública e do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Fundação Getúlio Vargas, para a elaboração do questionário; articulou com o Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE) a inserção de questões que associam o voluntariado às perspectivas dos ODS. Por fim, com o apoio da Rede Brasil do Pacto Global, estendeu essa parte da pesquisa para empresas que participam do seu Comitê Brasileiro do Pacto Global (CBPG), ampliando o alcance dos resultados.

Anna Peliano destaca que o intuito foi identificar o que já é feito pelas empresas em áreas correlatas e quais os desafios a serem enfrentados. Segundo a especialista, os dados apontam para um cenário otimista. Os resultados do BISC indicam que há possibilidades efetivas das empresas incorporarem a perspectiva dos ODS na sua gestão de negócios. Cerca de um terço delas já está trabalhando nessa direção e 43% pretendem fazê-lo no futuro.

As empresas respondentes da pesquisa têm a percepção que avançaram mais nos projetos relacionados ao ODS 17 (que diz respeito às parcerias), ao ODS 12 (consumo responsável) e ao ODS 8 (emprego digno e crescimento econômico): 23% delas já possuem projetos nessas áreas conectados à Agenda 2030, principalmente aquelas vinculadas ao Pacto Global.

Segundo a pesquisadora, as empresas reconhecem os benefícios de realizarem suas ações alinhadas aos ODS, tendo em vista que trata-se de uma agenda internacional, o que traz uma perspectiva mais ampla e ganho de patamar, mas também apontam as dificuldades que terão de enfrentar, principalmente no engajamento de toda a empresa ou no desenho de novos projetos alinhados.

O estudo

A versão com os principais dados do BISC 2016 já pode ser acessada aqui. Até o final do ano, o relatório completo será divulgado pela Comunitas em seu site.

publicada originalmente em GIFE news

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