Crise de Dramaturgia ou apenas um modelo econômico Cênico ?


ipad-maquina-de-escreverÉ impossível iniciar uma discussão sobre o teatro sem tocar em um dos principais elementos que o compõe, o “Texto Teatral”. Cada vez mais raro em nossos palcos, onde apresentações decorrem de técnicas de improviso, remix de anedotas e muitas outras técnicas, esse elemento parece escasso no mercado e nos palcos. Claro que antes do Texto Teatral, vem o pensamento, logo após ,o Texto. O que seria dos textos de Shakespeare   se antes de dramaturgia, fossem romances? Ou até mesmo fossem apenas tradição oral, como é o caso de Romeu e Julieta. Seria preciso adaptá-los para a linguagem teatral , transforma-los em diálogo, manifestando-se numa oposição de uma luta de vontades que caracterizam o conflito, elemento essencial que possibilita ao leitor ou à platéia criar expectativa em relação aos fatos que lê ou vê. O conflito é, portanto, qualquer elemento da história que se opõe a outro, criando uma tensão que organiza os fatos narrados e, consequentemente, prende a atenção do leitor ou da platéia. 

Estamos em uma crise velada na Dramaturgia ?

Discute-se, atualmente, a importância da performance, do corpo do ator, da linguagem da luz, da linguagem sonora, da transformação dos signos teatrais, enfim, de diversos elementos que hoje têm maior autonomia cênica, não dependendo única e exclusivamente do texto dramatúrgico. Texto este que, além disso, tem mesmo sido alvo de diversos questionamentos, tanto quanto a sua relevância para a cena atual como em relação ao seu futuro. Pode o teatro, hoje, sobreviver sem o  Texto ?  Cada vez mais vemos o “enredo” desaparece dos palcos, uma espécie de (Des)Drama  começa a acontecer na encenação. “Poucos textos se referem à história ou à política, muitos textos exploram os territórios íntimos, como que para compensar um déficit de emoções”. Ryngaert (1998).

No Teatro moderno ou contemporâneo  vemos uma super valorização do monológos, ou “ monologização dos diálogos” . Este tipos de espetáculos ganharam força a partir dos anos 80 e tornaram-se uma espécie de refúgio econômico para companhias, atores e grupos cênicos. A Representação tendo o público como testemunha é substituída pela relação face-a-face causada pelos monólogos. Sempre hiper-realistas, muitos destes, fragmentos de uma realidade crua e nua, destacam-se a ludicidade cênica do ator e de técnicos envolvidos. podemos citar como exemplo, o “Miolo da História” Texto e encenação , Lauande Aires. O Miolo da estória apresenta a vida e os sonhos de João Miolo, operário da construção civil e brincante de bumba meu boi que tem uma vida comum a tantos outros operários: casa humilde, vida sofrida e uma enorme solidão. Mas em meio a tudo isso, João sustenta o desejo de ainda vir ser cantador no boi onde brinca e ocupar uma posição de destaque na vida. O drama de João começa quando, não sendo aceito como cantador, decide não sair na boiada daquele ano. “Revoltado, ele vai trabalhar embriagado e acaba machucando-se, precisando refazer os votos com o santo para não perder a perna”, (descrição Palco Giratório). Enfim, o monólogo rompe a as relações entre espetáculo e leitor/espectador e o torna participe de uma realidade. Espectador/testemunha.  Outra situação são os “textos” Remix, nascidos de técnicas de improvisos e sempre modificados a cada nova temporada, mas não menos importante, mostram-se perspicazes em relação ao assunto do momento e muita das vezes bem mais politizados  que textos tradicionalmente dramatúrgicos. Focados na realidade do cidadão comum e sempre com exagerado tom  cênicos, de figurino e com escracho verbal, tornaram-se hoje com uma referência para um modelo econômico e de  liberdade expressiva , inspirados no teatro besteirol dos anos 80  tendo como um dos principais autores Miguel Falabela ,Guilherme Karam, Mauro Rasi e também no mercado de humor Cearense .

Aqui temos dois espetáculos de sucesso que conseguiram segurar-se nos palcos , o espetáculo “Uma linda Quase mulher” , da Companhia Deixa de Bobagem, texto e direção Denilton Neves ,  Uma Linda Quase Mulher –é uma paródia do filme “Uma Linda Mulher”, só que aqui a realidade é outra. A trama do espetáculo gira em torno de Júlia Roberta (Denilton Neves), uma empregada doméstica que sonha em ser a rainha da noite, e conquistar o coração do seu grande amor Ricardo Gerardo (Mano Braga) um cobrador de ônibus da linha Maiobinha/Renascença, mas para isso passa por várias situações armadas por sua arqui-inimiga ,Cintya Sapequara (Erivelto Viana), uma vilã caricata que não mede esforços para destruir os sonhos e os projetos de Júlia. Mas o lado bom de tudo isso é que a “Linda”, poderá sempre contar com a ajuda de sua patroa interpretada pelo ator Guilherme Telles e com sua super amiga Mia Cara de Gato (Arilson Ferreira), a diversão aumenta com a Mãe Lenara e Cleá ICEKISS (Daniel Scatena) e Léa Big Big (Julio Monroe).(release extraído de o Imparcial) ; o exemplo seguinte é “Pão com Ovo”   da companhia teatral “Santa Ignorância . A peça conta a história de duas personagens, Dijé (vivida por Adeílson Santos), moradora de bairro da periferia, e Clarisse, (interpretada por César Boaes)uma emergente alpinista social. Amigas de escola que se reencontram anos depois e falam de coisas engraçadas do cotidiano das suas vidas, retratando de forma bem humorada o atendimento nas empresas e os hábitos e costumes de determinadas classes sociais de São Luís. A montagem também lança o ator Charles Jr, revezando-se em vários personagens. A proposta da peça vem de alguns quadros já experimentados em apresentações em treinamentos para qualidade de atendimento de diversas empresas da cidade (release extraído da página do facebook da companhia )

Uma curiosidade é que segundo algumas pesquisas feitas em vários concursos literários me mostra uma situação um tanto quanto irônica. Textos teatrais com diálogos com dois ou mais pessoas, premiados, , não são encenados por grupos ou artistas , enquanto o monólogo é construído para  encenação imediata.

O que você acha ? Estamos numa crise  de Dramaturgia ou apenas em um modelo econômico cênico?

Por Valberlúcio

 

 

 

 

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